Estático, sem palavras, sem controle e só um turbilhão agindo dentro de si. Isso em um dia aleatório, após 4,2km de corrida e uma breve visita à casa de uma amiga. A endorfina é substituida por um hormônio que eu não conseguiria nomear. A velocidade com que um plano de banho gelado ou qualquer pós-plano é substituido por total incerteza é absurda. A força que os pontos de interrogação ganharam na minha vida é espantosa.
Você atribui várias certezas na vida, mas nenhuma é realmente concreta, só duas: a morte e o contestamento de qualquer outra coisa que não seja a morte. Você tem certeza que ama, tem certeza de quem ama; tem certeza do que vai fazer no futuro; tem certeza do que não vai mais fazer. Tudo em vão, até o amor, seja por uma profissão ou por um amigo. A única a se fazer é enterrar essas certezas bem fundo, onde ninguém possa encontrar e depois jogar na sua cara que não passam de reais incertezas.
Não adianta, você cava por dias, meses, planeja cavar por anos. Mas nesse meio tempo alguém pode impedir sua escavação, de forma abrupta você larga a pá. Larga-se a pá e simplesmente fita-se o objeto que você quer enterrar, tão precioso e tão especial. A única ação é sentar-se ao seu lado e ficar olhando, só olhando, mas no fundo-lá no fundo- as lembranças apunhalam cada centímetro do seu corpo, de dentro pra fora. Pode-se agir de duas maneiras: desistir da escavação e fazer todo o inverso, mesmo que o lugar não fique mais o mesmo, levando o objeto consigo; enterrar ele ali mesmo, naquela profundidade, onde alguém poderá desenterrar depois. A ação mais difícil com certeza é a primeira, mas a questão não é essa. A questão é: será que esse objeto merece todo esse trabalho inverso? será que esse objeto não será enterrado em outro lugar no futuro?
O suor, a dor e os pesares por estar escavando consome muito de si. Um mineiro quando cava sai do buraco bem diferente do que era antes, pensa por dias no que fez, até meses. Mas um dia ele simplesmente deixa de pensar naquilo, não esquece, mas deixa lá. Enterrado, seguro, algo que não pode machucar mais ninguém, mas também não faz ninguém sorrir ou querer abraçar, dar carinho ou deixar de dormir. Aquilo fica tanto tempo guardado que ele não sabe ao menos como é, às vezes tem vontade de ter de volta, mas simplesmente desiste.
Agora o peito do mineiro arde, a liga que constitui seu peito quase se funde. Ele quer aquilo de volta, mas tem medo. Tem medo de desenterrar e encontrar algo estragado, algo diferente de antes, tão diferente que não valha seu trabalho. Esse medo é sua certeza, ele sabe que tudo isso irá acontecer, será tudo diferente e, se não for, ele enxergará diferente de antes. O mineiro só queria ter tido tempo suficiente pra esquecer de vez, o mineiro só queria que fosse tarde demais. Ou não, talvez ele tivesse esperando inconscientemente, cansado e magoado. Fazendo com que a liga em seu peito se reforçasse dia após dia, pra que quando chegasse o momento ele pudesse dizer não ou sim, nada mais, nem silêncio e nem divagação. Uma resposta tão concreta e sólida quanto seu revestimento cardíaco.
Tarde demais mineiro, conseguiram alcançar seu ponto de fusão, seu peito está agora desprotegido.
Nenhum comentário:
Postar um comentário