sábado, 28 de setembro de 2013

Gotas de elétrons

Fazia muito tempo que eu não escutava um trovão. Chove leve lá fora, a água emite um som de calmaria tremenda, os trovões são distantes e curtos, quase inaudíveis. Prefiro os barulhentos, assim como prefiro a chuva forte. O tipo de chuva que som algum consegue sobrepor-se, aquele que elimina qualquer ruído de máquinas e relógios, algo naturalmente forte. Chuvas fortes sempre me transportaram pra dentro de mim mesmo com uma tremenda facilidade. Em alguns momentos isso foi realmente bom, fantasiar e sorrir de sua própria criatividade infantil e boba, mas hoje refletir não é tão agradável como era antes.

Muitas crianças temem as tempestades e trovões, como eu já disse, eles sempre me acalmaram. Deitar-se e ouvir aquela luta estrondosa entre água, vento e eletricidade era como estar deitado sobre uma nuvem enquanto ela te abraça pra dentro de si, um ar fresco e uma mente limpa. Só consigo uma emoção similar a essa mergulhando na água, indo bem fundo e depois fingindo que estou dormindo. O som é natural também nesse lugar, qualquer movimento ganha vida nos ouvidos, até os mais sutis. Minha mãe sempre amou dormir com chuva também.

Quando morávamos em um condomínio de prédios, um raio acertou o prédio vizinho ao nosso, no bloco ao lado. Foi o som mais alto que eu já ouvi na vida, como um chicote em chamas e no final um grande estouro. Todo o sistema elétrico do prédio ficou comprometido, pois o pára-raios não conseguiu enviar toda a eletricidade para a terra. O cheiro de borracha queimada e as manchas pretas de cada interruptor de todo o prédio vizinho nunca saíram de lá, nos mudamos pra uma outra quadra, mas fiz algumas visitas com minha vó a sua amiga moradora do tal prédio, o cheiro era o mesmo.

Enquanto eu não fizer nada de realmente promissor, continuarei sendo esse nostálgico depressivo nesses textos. Talvez um dia a felicidade me faça querer criar, assim como a tristeza sempre o fez.

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