sábado, 29 de junho de 2013

Seu Osmar

Recebi uma alta temporária, não sabia que ficar com abocath por muito tempo fazia o braço doer assim. Cheguei no hospital por volta das 20:00 e fui internado às 22:30, foi quando conheci meu companheiro de leito. Ao chegar no quarto vejo um senhor por volta dos 64 anos, mas seu estado o envelhecia mais ainda. Cumprimentei-lhe, ele correspondeu com um aceno de cabeça e um sinal de positivo com a mão direita trêmula. Com certeza eu estava melhor do que ele, um movimento tão simples, mas difícil pra ele.

Tomei meu banho e me vesti com as roupas do hospital, não pude comer, porque iniciei meu jejum pré-operatório. Logo que saí do banho pude ler o adesivo pregado na maca daquele senhor, seu nome era Osmar Fagundes da Silva, mais brasileiro impossível. Não sabia o que ele tinha, perguntei a ele e ele simplesmente movia a boca, mas seus pulmões não tinham força pra vibrar suas cordas vocais. Me aproximei e mesmo assim não compreendia, até que ele desistiu de falar e eu de traduzir. Comecei a fazer perguntas em que a resposta era sim ou não, como: O senhor tem filhos? 'positivo com a cabeça' Eles vem visitar o senhor? 'positivo' O senhor ta aqui há muito tempo? 'positivo' A enfermeira entrou para trocar um de seus medicamentos intravenosos e nos mandou dormir.

Durante a noite eu não conseguia dormir, ansioso por tudo um pouco, pensando em tudo um pouco. A tosse de Seu Osmar me tirou daquele transe, uma tosse sofrida e falha, ele simplesmente não tinha forças para tossir. Senti algo tão ruim quando o vi sofrendo, logo em seguida percebi que ele babava descontroladamente e usava uma toalha para secar a saliva. Fazia aquilo tão lentamente, com tanto cuidado, pois estava sondado. Seu olhar era distante naquele momento, não sei se ele pensava em como é bom estar saudável ou se já pensava no pior que estaria por vir.

Tentei imaginar a vida de Seu Osmar antes daquilo tudo. Por meio de minhas perguntas descobri que ele é ribeirão pretano, logo pensei nos antigos casarões que ainda estavam preservados nos anos 60 e nos famosos botecos frequentados por ícones, como o jogador Sócrates e tantos outros. Imaginei Seu Osmar mais jovem, um negro alegre que bebia sua cerveja após longos e duros dias de trabalho. Mais a noite ia pra casa e se arrumava pra frequentar as gafieiras da época, todo perfumado e à procura de uma morena pra se apaixonar. Sambava e dançava forró como todo bom negro, possuía a malandragem no sorriso e vez ou outra arrumava confusões à beira de carteados, mesas de sinuca ou namorados ciumentos. Fumava seu palheiro na volta pra casa com o braço envolto em uma de suas morenas, feliz e despreocupado com o dia seguinte, seria Domingo.

Não sei se Seu Osmar viveu nem 1% das suposições que acabei de fazer, mas sei que Seu Osmar sente saudades. Após uma semana de convivência descobri que ele tinha sofrido um AVC e ao tentar comer comida sólida engasgou-se e desenvolveu pneumonia. Ontem as enfermeiras colheram seu sangue para exame periódico e constataram uma bactéria em sua circulação, ele devia ser transferido à ala de isolamento. Nossa despedida foi breve, mas calorosa o suficiente para a situação, ao menos consegui fazê-lo sorrir por algumas vezes nesses dias difíceis. Tenho certeza que nunca mais verei o Seu Osmar, confesso que menti pra ele ao despedirmos, mas foi o certo a ser feito.

Foi um imenso prazer Seu Osmar.

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