Voltei a dormir cedo, vou abrir uma exceção hoje pra poder dormir mais cedo do que o esperado. Faz duas semanas que eu moro sozinho, sozinho de verdade, andar pelado nem tem mais tanta graça. Porque não existe chance alguma de alguém abrir a porta e você ter que sair correndo, que sem graça. O negócio agora é sangrar o "zói" a tarde inteira até mais ou menos essa hora, já é quase rotina. Até ontem nada interrompia meus estudos, até ontem. Enquanto estudo com meus fones o mundo em volta deixa de existir, mas por volta das 17:20 um som horrível me obrigou a pausar a música e ir em direção à sacada. Foi o som de pneus queimando no asfalto e depois um estrondo metálico, pois é, só pude ver a moça estirada no chão e um carro por cima de sua moto. Fiquei uns segundos sem reação, mas quando as pessoas foram se aglomerando eu resolvi colocar minha camisa e ajudar, como? Eu não sei, mas quis ajudar.
Quando cheguei ela ainda tava desacordada, mas o sangue que escorria por sua face denotava a gravidade da batida. Enquanto me aproximava da moça, um rapaz pediu a minha ajuda pra tirar o capacete dela, fiz aquilo com o maior cuidado que pude e enquanto o rapaz puxava o capacete suavemente eu segurava sua cabeça pela nuca, por onde o sangue já escorria. No momento em que o capacete foi retirado ela acordou com os olhos apavorados e começou um grito chorado de dor. Aquele som, um som de desespero, de súplica e de confusão, tudo isso ao mesmo tempo. Nunca vou me esquecer daquele som, a única coisa que conseguia fazer era pedir para que ela se acalmasse, pois o resgate já tinha sido requisitado. Mas eram palavras em vão, ela continuava a urrar de dor. Minhas mãos tremiam e o sangue dela já aquecia grande parte delas, foi difícil não me desesperar junto com ela.
Minutos de choro e grito se passaram e eu já tinha me acalmado, acho que ela também, porque ela agora gritava que a perna tava quebrada e não só isso, mas pedia ajuda conversando. Finalmente o SAMU chegou, a imobilizaram e colocaram-na em uma ambulância. As pessoas em volta que viam o sangue nas minhas mãos perguntavam se eu tava com ela, ou se a conhecia, contei a história do acidente sob minha perspectiva por mais de 8 vezes. Resolvi voltar pro meu apartamento, voltar a estudar. Não conseguia parar de pensar naquela moça, voltei a estudar no automático, só quando comecei a escrever que percebi o sangue já coagulado nas mãos. Fitei ele por um tempo e a única lembrança que ele despertava eram aqueles olhos, aqueles olhos e aquele som, nunca vou esquecer. Lavei minhas mãos e fui me deitar, desisti de estudar.
Não contei essa história a ninguém, acho que nem irei contar. Que ela fique por aqui, essa página vai ser meu confessionário nesse ano difícil que tenho pela frente, na verdade sempre foi um confessionário, só que agora esse será meu único. Foi-se o tempo que eu tinha tempo de contar sobre o meu tempo àqueles que tinham tempo pra me escutar.
Só espero que meu tempo volte, só não sei se quero o tempo das pessoas que um dia eu já tive.
http://onlyoncee.tumblr.com/post/44831314991/vejo-a-dor-te-preenchendo-aos-poucos-a-cada-dia :)
ResponderExcluir