quarta-feira, 25 de julho de 2018

Descansa lobo

Firma o passo, segura seu peso, levanta seu focinho e tenta encontrar o caminho de volta. Tenta lobo, você já viveu lá por tantos anos, sabe onde é. Lambe as feridas, faz uma pausa, mas continua. Tenta se lembrar lobo; tira a flecha do peito, respira fundo, mas continua. Não desiste lobo, olha as marcas no chão: são suas patas, menores, mas ainda são suas. Se arrasta lobo, todo esse sangue ficando pra trás é seu, mas você sabe por quem lutou. Abre os olhos lobo, não chegou sua hora, já dá pra ver a clareira daqui! 

Acorda lobo, você ainda ta no mesmo lugar que foi flechado e não adianta tentar voltar, não dá tempo. Agora fecha os olhos lobo, tenta sentir seu sangue quente batendo nesse metal gelado e torce pra derreter. Quanto tempo? Não sei. 

Descansa lobo, chegou a hora de descansar.



sábado, 21 de julho de 2018

Dia 21

- Paciente masculino, 24 anos, vítima de trauma de alta energia há 1 hora; Glasgow 7, necessitou de intubação; PA 80 x 50mmHg; FC 175bpm; bulhas rítmicas, hipofonéticas, 2T, sem presença de sopro. Presença de estase jugular; MV+ bilateralmente com estertores crepitantes em bases pulmonares; USG de emergência mostra presença de líquido livre na cavidade abdominal. Presença de fratura exposta de tíbia D, Gustilo 3A.

-  Corre 2L de ringer em cada acesso!

- Ele tá parando! Checa o pulso central.

- Ausente.

- Toracotomia de emergência, agora!

- Já estamos próximos do saco pericárdico, mas tem algo estranho.

- Ele tem um tamponamento cardíaco, é só puncionar e retirar o sangue do pericárdio, em seguida massageie o coração com as mãos.

- Doutor, isso não vai ser possível.

- Como não?!

- O coração não está aqui.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Traço

Em cada traço coloco todo meu amor, toda a esperança e o menor número de palavras.



quinta-feira, 12 de julho de 2018

Dor ou nada

Conseguir sorrir o dia todo com a alma despedaçada foi algo que me acostumei, até o momento. Minha mente não descansa por um segundo sequer, o peito se preenche de vácuo. Não importa quantos olhares ou bocas alheias eu encontre, a esfera opaca continua a existir. Será que tem um tipo de amor que se gasta? Família e amigos, amor constante e imutável. Amar uma mulher: amor constante, mutável e se desperdiçar não volta, gastou.
Esse calafrio não era dor, queria eu que fosse, são doses de nada me preenchendo mais e mais. Evitei muitas formas de não vê-la, não ter chance de voltar atrás; mostrar toda a face do mercenário que agora sou, decepcionar de propósito, gerar ódio e repulsa. Acordar todos os dias com o mantra: feliz sem mim; feliz sem mim; feliz sem mim. Hoje vi sua felicidade e todo esse nada começou a doer. Só quero que algo bom consiga brotar em mim novamente.

Pela última vez: Feliz sem mim.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Olhos secos

Por muito tempo me enxerguei de forma linear. Cada episódio importante moldaria meu ser gradualmente, uma evolução involuntária, quase sempre benéfica. Só que o agora me mostra a quebra dessa linha em milhares de fragmentos, juntos formam uma esfera opaca. Espero poder retirar toda essa opacidade, enxergar o que há dentro; ta difícil me entender. Não dá mais vontade de voltar, não há arrependimentos, não há sede de futuro. Meus olhos? Ainda secos, nenhuma umidade, o que me preocupa.


Xeroftalmia.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

À Deriva

Cada fio negro se enrola em minha consciência e a lembrança do erro se porta como fagulha no peito. O arrependimento se torna raiva, e a fúria dos lábios macios e venenosos me deixam à deriva. As velas já içadas não conseguem me conduzir pra lugar algum, pois os olhos de navalha ainda cortam, cortaram fundo demais.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Olhos de Navalha

No peito só resta o vazio e cicatrizes geladas, o frio na barriga é de dor, as borboletas que aqui já habitaram estão mortas ou cansaram de bater asa. Fui alvo das lâminas mais afiadas do mundo, lâmina fria nº 22; cortaram meu ser, minha honra e corromperam minha alma pra todo o sempre. Destruí o que construí durante 19 anos, já não posso ser o cavaleiro de armadura reluzente, mas sim o mercenário, sem código.
Cabelos negros me mergulharam na escuridão; não posso destruir quem me amou da forma mais perfeita e verdadeira, devo partir sem olhar pra dor que causei. Assim, a dor vai ser menor.