Era uma rua bem pacata aquela, o sol estava a pico e ao longe se ouvia uma passada rápida, mas bem curtinha. Ao longe se via um projeto de ser, correndo com a máxima velocidade que podia pelas calçadas defeituosas. Era uma criança, um garoto, estava lá com seus 6 para 7 anos de idade. Seus cabelos loiros batiam em seus olhos enquanto corria, motivando sua fantasia de ser algum velocista ou mesmo um automóvel, de repente ele pára com a respiração ofegante e já cansado. Sem camisa, vestindo apenas um short preto de futebol, ele respira e suas costelas ficam à mostra por cima de sua pele branca denotando sua magrelice de menino. Em sua volta ele admira a rua deserta com os olhos parcialmente cerrados por conta do sol em seu rosto, caminha até o outro lado da rua e fica sob o capim de um terreno baldio, pois a calçada começa a queimar seus pés descalços.
Com as pequenas mãos na cintura ele observa o vento movimentar levemente a copa da goiabeira de um de seus vizinhos, logo pensa em mudar de brincadeira, mas lembra-se dos dois cachorros que lá habitam. Um deles era um pequeno vira-lata, preto e com um latido chato. Era ele que puxava os uivos de todos os cães da vizinhança, e tudo por uma breve passada na calçada durante a madrugada. O outro era vira-lata também, porém era dos grandes, tinha sangue de fila brasileiro dava pra ver isso pelo tamanho de suas patas e cabeça, mas mesmo sendo maior era mais amigável. Quase não latia, só latia quando se embalava pelas atitudes do menor.
Porém o garoto não desistiu. Enquanto se aproximava da casa ele ia arquitetando seus planos de entrada e fuga, ele sabia que não tinha ninguém na casa aquela hora. As crianças estavam na escola, por serem mais novas tinham que estudar durante a tarde, ele estudava na mesma escola que elas e por ter idade para estudar durante a manhã se sentia melhor, mesmo não entendendo porquê. Chegando em frente a casa os cachorros já vieram latir no portão. A casa era bem simples, possuía um portão de grades baixo e da rua dava pra ver todo o quintal da casa. Na verdade a casa era um grande quintal, a estrutura que eles moravam era só um detalhe. Os muros da casa eram suas próprias paredes que ficavam ao lado de outro terreno baldio, ao fundo dava pra entrar pulando uma cerca de madeira que demarcava os limites entre a casa e o terreno. E logo o garoto lembrou-se dessa entrada.
Enquanto rodeava a casa os latidos continuavam e mesmo quando já estava ao fundo já em frente a porteira de madeira eles continuavam a latir no portão da frente, o que agradou o garoto. Pulou a porteira furtivamente e foi andando em direção à goiabeira, os cães já tinham parado de latir e estavam deitados em frente o portão de grades de costas para ele. Enquanto caminhava pé a pé, com muito cuidado ele se esquivava das folhas secas de abacate. A casa possuía várias árvores além da goiabeira, mas só uma o interessava. Quando estava quase chegando o cão maior se virou e o garoto ficou paralisado, os dois ficaram. Um observava o outro, ambos imóveis, mas de repente um levantar de orelhas alertas foi o suficiente para dar a largada. O cão saiu em disparada atrás do menino que corria em direção a goiabeira, e escutando o alvoroço, logo atrás estava o vira-lata menor, acompanhando o latido grave de seu parceiro amarelo. Colocando as mãos no primeiro galho de escalada o cachorro maior já patinava fazendo a curva em direção a sua perna, mas o garoto conseguiu subir a tempo. Apoiando as duas patas dianteiras sob o tronco da goiabeira ambos latiam incansavelmente e o coração do garoto em disparada acompanhava os latidos. A princípio ele sorria, só pensava em como iria contar isso ao seu irmão mais velho e aos seus outros amigos. Mas logo percebeu que ficaria ali por um longo tempo. Desesperou-se, pois estava quase na hora das crianças voltarem da escola. Olhava em volta e não conseguia achar nenhuma saída, os cães latiam tanto que atrapalhavam seu pensamento.
Aos poucos só o pequeno latia, o maior foi beber água e por lá ficou. Enquanto o tempo passava o garoto olhava as goiabas que estavam à sua volta e percebeu que todas estavam verdes. Subindo até um galho próximo ao que estava ele colheu uma e a guardou no bolso, seu pensamento voltara às crianças e aos donos da casa. O que eles fariam se eles o vissem ali dentro? Sua tia era advogada e um dia quando pulou dentro da casa murada de um vizinho para buscar sua bola ele foi pego, mas não pelo vizinho, e sim, por sua tia. Ouviu o sermão mais longo de sua vida, repleto de leis e artigos jurídicos que ele não entendia bem, mas quando ela pronunciou a palavra cadeia ele com certeza entendeu o recado: "A propriedade privada é uma merda." Já pensava na polícia entrando pelo portão de grades, obrigando a descer e o levando até em casa, onde prenderiam sua mãe, pois segundo sua tia menores de idade não podem ir para a cadeia, mas seus pais é que vão. Mordendo o lábio inferior -como fazia enquanto pensava duramente- teve uma ideia: "Subo até o topo da árvore e observo eles chegando e enquanto faço isso posso me camuflar entre as folhas, aqui é muito alto, eles não perceberão." O cachorro parou de latir e deitou-se embaixo da goiabeira. Com muito custo por conta de seus pequenos membros ele conseguiu chegar até o topo. Podia ser o menor da turma, mas escalava árvores como os mais velhos, lá de cima ele observava as pessoas voltando do trabalho ou trazendo suas crianças da escola, segurando suas mãos enquanto elas pulavam e emitiam sons irritantes com a boca. O tempo passava e sua coxa já estava dormente, mas ao longe pôde ver seu vizinho com as crianças no cano e na garupa de sua bicicleta velha. O garoto nunca sentira aquilo, parecia que havia engolido cinco picolés de uma só vez. O homem abriu o portão e deixou as crianças descerem, uma menina de sete anos e um garoto de cinco. Os dois correram em direção a casa enquanto o pai guardava sua bicicleta em um canto escorada na parede. Lá de cima o garoto estava imóvel, controlava até sua respiração, a goiabeira ficava bem ao lado da casa e lá de cima ele podia ver o alpendre e o banheiro que ficava lá fora. Depois viu a moleira do pai que passava por baixo da árvore para acariciar o cão que estava deitado. O garoto suava frio, contia sua respiração e desejava mais que tudo que o homem fosse embora. E ele foi, entrou na casa e começou a dar ordens às crianças, a primeira foi para que uma delas tomasse banho. Houveram revoltas, mas a menina acabou consentindo em ir primeiro. O cão não saía de baixo da árvore, simplesmente não se movia, parecia que ele sabia o que estava fazendo, parecia que sabia a dor que o garoto sentia no pescoço e a dormência de suas pernas. Maldito cão preto, pensava o garoto, desejava como nunca que algo o tirasse dali. Ouvindo passos o garoto prende sua respiração novamente, já está quase noite, mas ele consegue ver claramente o que acontece na varanda da casa. É a menina, ela sai nua em direção ao banheiro, mas antes fica parada olhando para o cão de baixo da árvore. Caminha em direção ao banheiro e entra. O garoto tem vontade de rir, não entende porquê, mas acha graça o corpo nu da menina. Talvez seja pelo fato de saber que alguém a observa e ela nem se dá conta disso. Ao som do chuveiro ligado o portão da casa se abre novamente, entra a mãe. Com um olhar fatigado ela caminha lentamente em direção a a porta de entrada e vai para a cozinha. Falando coisas que o garoto não consegue ouvir ela conversa com seu marido. Enquanto conversa o garoto escuta o barulho de panelas, é a hora do jantar. Pensa em sua mãe e em como ela deve estar preocupada, ela o chama normalmente a essa hora, assim que escurece. O menino escuta meio baixo o barulho de fritura sob a frigideira e instantes depois o cheiro de comida. Sua barriga ronca e ele se lembra da goiaba, mas não come, porque seu irmão um dia lhe ensinou que goiaba verde, laranja, acerola, manga e todas as frutas que panhavam fazia a barriga doer se comesse com ela vazia. O chuveiro desliga e a menina grita para que o pai leve uma toalha ao banheiro. O pai entrega e instantes depois ela sai enrolada na toalha, igual uma garota mais velha, tapando até os seios imaginários.
A mãe grita que o jantar está pronto. Nesse momento o garoto observa atento o cão que parece entender o que a mulher gritara. Ele se levanta e caminha em direção a porta de entrada. Não pensando duas vezes o garoto desce lentamente da árvore e o som dos talheres batendo nos pratos dão a confiança certa para ele continuar a descer. Finalmente desce, mas quando começa a caminhar para o fundo da casa ouve a mãe gritar a filha. Tomado por espanto ele percebe que a filha não estava na mesa jantando e quando olha para trás se depara com a ela, já vestida, fitando-o com o rosto inexpressivo. O menino fica paralisado e a mãe grita o nome da filha novamente. Quando a mãe larga os talheres e prepara o último grito antes de se levantar a menina responde: "To indo!" Ela olha mais uma vez o garoto loiro em sua frente com os olhos cor de mel esbugalhados e num movimento rápido mostra a língua pra ele e sai andando em direção a porta da casa. Sem pensar o garoto sai em disparada, pula o mais rápido que pode a cerca dos fundos, corre pela lateral da casa com o terreno baldio e passa pela calçada onde os cães param de comer e começam a latir fazendo com que todos os outros da vizinhança os acompanhe. Chegando na esquina da rua ele chega à sua casa e quando sobe na calçada vê seu irmão chegando de bicicleta com seus amigos. Enquanto ele abre o portão e se despede o garoto conversa com um dos garotos também de bicicleta. Despedindo-se de todos seu irmão, após guardar a bicicleta, aparece no portão e diz: "Vito, a mãe ta chamando pra ir jantar."
Ele entra na casa, e enquanto caminha enfia a mão no bolso tira a goiaba verde e dá para o irmão. Ele agradece e os dois passam pela cozinha e vão em direção ao banheiro lavar suas mãos. Enquanto um lava as mãos o outro lava também a goiaba. Durante o jantar todos conversam: o avô, a tia grávida, a mãe, o irmão. Menos o garoto, que devora seu jantar com gosto. Deixando o prato na pia ele caminha até a sala, senta no sofá para assistir TV, mais tarde seu irmão chega com a goiaba na mão. Sua atenção se volta a goiaba, o irmão percebe e oferece: "Quer de volta?" O garoto diz que não com a cabeça, mas o irmão insiste: "Certeza?" Com cara de desgosto o garoto responde: "Isso aí dá dor de barriga."
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