Quantas vezes eu desejei poder correr sobre os ventos mais rápidos, respirar no fundo dos lagos mais escuros e profundos, enxergar a quilômetros de distância só pra poder admirar melhor a vista que me rodeava, garanto que foram várias. Já pensei sobre isso nos melhores momentos possíveis, só pra poder imaginar um modo de deixar o ótimo próximo à perfeição, aproveitar duzentos por cento de tudo aquilo, mas eu sei que mesmo obtendo tudo isso gostaria de um pouco mais depois.
Quantas vezes já caminhei sobre os trilhos do trem sem um rumo conhecido, tardes nubladas de sábado, quando a cidade se muda temporariamente para o campo e os que ficam descansam nas sombras de suas árvores de calçada, mas eu não, eu caminho e caminho até dar em algum lugar ou até sentir os trilhos vibrando indicando minha deixa. Não fiz isso muitas vezes, mas fiz o suficiente pra poder ficar feliz apenas com a lembrança do momento.
Quantas vezes peguei o violão sentei na calçada com meu irmão e amigos pra cantar qualquer coisa, sem separação de vozes ou nenhuma afinação determinada, o violão que passava de mão em mão e a cada acorde inicial sorrisos surgiam nos rostos de cada um e a letra simplesmente fluía. Já era noite quando as cordas se cansavam e as canções cessavam na mesma velocidade que surgiram, falsos trovadores, cada um para sua casa.
Quantas vezes quis dar no mínimo um abraço apertado de apenas 3 horas de duração e não o pude o fazer. Achei graça das piores graças, mas que realmente me fizeram rir, virei noites conversando sobre tudo um pouco e não dizendo nada, prometi segredo do que nem precisava e guardei os meus todos pra mim deixando escapar faíscas de mistérios já resolvidos e nada mais. Deitava querendo sonhar e simplesmente nem conseguia dormir.
Quantas vezes eu me diverti com apenas cinco amigos que no fim da madrugada se reduziam a apenas dois. Horas caminhando e conversando, cada hora com um amigo diferente, mas no final todos estavam na conversa o que sempre acabava em bagunça e longas risadas no final das contas. Momentos em que um olhar podia significar apenas uma coisa: "não ria." Impossível, na verdade o significado era o inverso. Competir em tudo, vencer todas e não ganhar nada só a revolta dos maus-perdedores e no final conseguir dizer sempre que puder: "Já to sentindo saudades cara."
Quantas vezes era apenas eu, iPod, mochila, malas, poltrona, janela, estrada, serras e o principal e preferido acompanhante, O Sol. Música e raios fracos que beijavam meu rosto e batiam levemente sobre meus olhos fazendo-os fechar levemente deixando uma grande fresta para as pupilas poderem admirar o nada. O tempo parava, músicas ditavam o ritmo da viagem juntamente com a ansiedade de não chegar logo, momentos assim tem de ser aproveitados ao máximo.
Os sentimentos também precisam de férias e é assim que eu faço com todos os meus, da tristeza à felicidade, do ódio ao amor, da euforia à serenidade e da nostalgia ao "agora". Não é ser carpe diem, é saber quando aproveitar cada segundo como se fosse o último, porque será, e ter a consciência de que poderá perder tudo, mas que nem tudo poderá perder você, só corra, corra até cair e olhe para as nuvens ao menos uma vez. As nuvens tem a habilidade de nos mostrar aquilo que tentamos enxergar uma vida toda, mas que preferimos ignorar.
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| "You were only waiting to this moment to be free... (8)" Blackbird - The Beatles |

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